Opinião: O problema não é Maria Bethânia…
em 16 Março, 2011 |Não há outra forma de começar este texto sem esclarecer, antes de qualquer coisa, que não estou defendendo Maria Bethânia e que nem sou fã do seu trabalho.
O que mais me desanima nesta história toda e na repercussão que a coisa tomou é a maneira como as pessoas perdem o foco da causa mais importante e deixam de atacar a verdadeira razão do problema pra procurar endemonizar uma figura pública.
A grande questão disso tudo, e que muita gente não percebe, é que o problema não é o projeto de Maria Bethânia. Não tive acesso a ele, mas acredito que não exista nada errado com o projeto. As pessoas se assustam com a cifra e não querem entender mais nada.
Pra começar, o projeto está até barato. Desde quando 3,5 mil reais (1,3 milhão do projeto dividido pelos 365 vídeos que serão realizados) está caro para um clipe de Andrucha Waddington (diretor global e de filmes premiados em Cannes e outros festivais – e, mais uma vez, digo que não estou exercendo nenhum juízo de valor sobre o trabalho deste profissional)? E isso se o montante todo fosse para a realização dos vídeos, sem contar o cachê de Maria Bethânia, de Hermano Vianna (que coordena o projeto), os custos com o site (design, programação, manutenção, hospedagem e etc e etc), além de toda uma equipe técnica de dezenas de pessoas envolvidas e trabalhando.
Não acho que o projeto seja ilegítimo. E não acho um absurdo o valor. O problema, obviamente, é quem paga essa conta. E se, por lei, Maria Bethânia tem o direito de inscrever um projeto, por que está errado ela inscrever? Se você fosse rico e famoso e tivesse direito a um recurso para investir em sua carreira, gravar um novo CD, clipe ou filme, não faria? O grande equívoco do negócio é a lei que permite que ela faça isso. E não só ela. Ivete Sangalo, Marisa Monte, Caetano Veloso, o Rock in Rio (sim!), diversas super produções da Globo Filmes e uma infinidade de projetos milionários tem a todo ano a sua captação aprovada através de leis de incentivo.
Ah, eu disse captação. Porque ainda tem isso. Tem gente que não sabe o que esta palavra significa e pensa que o Governo está entregando a dinheirama diretamente na mão da cantora. Não, o projeto dela foi apenas habilitado a captar recursos. Isso significa que agora eles terão que procurar patrocinadores junto à iniciativa privada. As empresas é que vão pagar o 1,3 milhão ao projeto de Maria Bethânia e depois vão abater parte desta quantia do imposto de renda (aí sim, indiretamente, este valor sai dos cofres públicos).
A Lei Rouanet não avalia o mérito do projeto e o seu desdobramento social. Para um projeto ser aprovado basta que ele preencha todos os pré-requisitos do formulário de forma clara e objetiva e que o currículo do proponente comprove que ele tem capacidade técnica de realizar tal projeto.
Neste ponto, temos a grande questão. Além de Maria Bethânia, também o Joãozinho, o Juquinha e a Aninha tiveram os seus projetos inscritos e aprovados para a captação pela Lei Rouanet. Mas as grandes empresas vão preferir patrocinar quem? A grande Maria Bethânia ou os ilustres desconhecidos fictícios citados acima? Lógico que os empresários vão investir o seu rico dinheirinho em artistas já famosos e consagrados que vão garantir mais visibilidade e retorno de marca.
Assim, as organizações ganham duas vezes: com o imposto que é isentado e com a publicidade gratuita obtida nestes grandes projetos. Isso sim é um absurdo. Porque a decisão do destino dos recursos públicos fica a cargo da iniciativa privada, que acaba por gerir, de alguma forma, a política cultural nacional com interesses substancialmente mercadológicos. É a privatização da cultura!
Então, mais uma vez eu repito. O problema não está com Maria Bethânia, tampouco com o orçamento do seu projeto. Ela está apenas exercendo um direito de cidadã e de artista. O problema todo é o mecanismo de tal lei que permite que um projeto com grande apelo midiático e facilidade de obtenção de patrocínios privados dispute os investimentos estatais com outros projetos de menor visibilidade.
O que mais me deixa indignada em repercussões deste tipo é a escolha de alguém famoso pra alvo de ataques, sem que ele tenha culpa real na questão. Reparem a grande mobilização na internet que está levando o assunto aos Trends Topics do Twitter e gerando uma avalanche de posts em blogs diversos e em perfis do Facebook. Tudo isto para falar (mal) de Maria Bethânia e do valor astronômico da sua nova obra. Enquanto se deixa de atacar a verdadeira raiz do problema. Simplesmente um desperdício de tempo, saliva e caracteres. Não seria mais produtivo se este esforço fosse direcionado para a discussão da reformulação da lei em questão?
UPDATE – Agora sim discutindo o projeto de Bethânia…
Bom, como falei anteriormente, não tive acesso ao projeto antes de escrever este post. Agora que li, posso dizer que o projeto é realmente ruim, superfaturado e mal escrito. Prevê um número muito pequeno de público. 6 mil acessos diários é muito pouco para um projeto desta magnitude, não justifica mesmo o valor investido.
O texto foi copiado e colado, sem nenhuma revisão, de um projeto anterior que previa a sua realização durante o ano de 2010. E ainda copiaram informações do Wikipedia sem nem se dar ao trabalho de tirar o [carece de fontes?]. Logo o currículo da produtora de vídeos…
Ok, o projeto merece sim críticas severas. Mas continuo a dizer que o objetivo principal deste post era justamente criticar a crítica. Exatamente porque a grande maioria que bombou a internet ainda não tinha lido o projeto (e muitos até hoje não leram) e falavam irresponsavelmente.
Como eu disse antes, a grande questão é que não adianta atacar Maria Bethânia agora e depois Ivete Sangalo e cicrano que vão propor projetos com verba equivalente.
Este ano, Marisa Monte, Maria Rita, Erasmo Carlos e Sula Miranda
também tiveram projetos aprovados com pedido de captação acima de R$ 1 milhão para a realização de shows e gravação de DVD. Propostas ainda menos louváveis que o tal blog.
E há pelo menos 29 projetos autorizados a captar mais de R$ 1 milhão. Incluindo ilustres desconhecidos e projetos de música erudita como a Semana de Música Antiga da UFMG.
Lembrando, mais uma vez, que estes projetos não receberam o dinheiro do Estado, apenas foram aprovados para captação, ou seja, terão que correr atrás de patrocinadores da iniciativa privada.
Sim, e então, considerando que o projeto de Bethânia é ruim mesmo, quem devemos criticar por isso? Ela por ter sido agraciada com tal benefício ou quem aprovou o projeto e permitiu que ela gastasse este valor? Vamos atacar o analfabeto que passou passou no vestibular pela sua ignorância ou o mecanismo falho da prova que o aprovou?
Volto a afirmar: o problema não é da artista ou do montante. E sim da lei que permite que o evento de música erudita compita na busca de patrocínio com o blog da Bethânia. Quem tem mais visibilidade? Em qual projeto as empresas vão preferir investir?
Então, devemos unir os nossos esforços para pressionar uma mudança da lei e exigir que os projetos apresentem melhores contrapartidas sociais, ao invés de ficar apontando o dedo pra fulano ou beltrano e alimentando um sensacionalismo ridículo e infundado.

Olá Claro, ótimo texto. Simples e esclarecedor.
obrigado
Acho até que havia formas melhores de começar o texto sim, Clarinha, mas vamos lá. Rs.
Concordo em número e grau com tudo que você escreveu. Não entendi o alarde no Twitter hoje pela manhã. Só vi as pessoas fazendo piadas maldosas com a hashtag “#mariabethania”. Como ainda tava desinformada, fui me inteirar do ocorrido. “Ah, era isso?”, pensei. As pessoas queriam que o projeto fosse inabilitado só porque se tratava da Maria Bethânia? A lei não deve servir para todos?
Não é de novidade que a Lei Rouanet aprova projetos de grandes nomes da indústria musical, além dos shows de artistas estrangeiros no Brasil. Além disso, o valor do projeto é uma bagatela! Inclusive, acredito que existam outras fontes de recursos financeiros para o projeto, pois acho que o valor aprovado no Minc não será suficiente. Produção audiovisual é caro, e ainda tem o suporte virtual, além do tempo corrido para preparar todo esse material para publicação, etc e etc. É uma equipe de gigantes trabalhando diariamente por um ano!
Outra questão é: ainda bem que foi a Maria Bethânia! Sim, pois gostando ou não, é possível reconhecer o valor cultural de sua obra. Sei que os vídeos previstos no projeto serão interpretações pela cantora de poemas de terceiros, mas convenhamos que a Bethânia sabe fazer isso muito bem. Melhor ainda é fazerem parte da equipe Andrucha Waddington e Hermano Viana! Que bom que o incentivo fiscal caiu em mãos competentes que, com certeza, farão um trabalho de altíssima qualidade, que enriquecerá nosso repertório cultural.
Além disso, o saldo positivo disso tudo pra mim, enquanto produtora cultural por formação, é que o meu trabalho tende a ser mais valorizado. Só produtores culturais competentes conseguem aprovar um projeto de 1,3 milhão na Rouanet! Eu queria ter escrito esse projeto…
Aproveito para deixar um link que contém números que não incomodaram a quase ninguém. Ao menos, até onde sei, não entrou pros Trending Topics do Twitter…
http://www.radiometropole.com.br/noticias/index_noticias.php?id=VGxSUk1VOVVSVDA9
Achei que o importante pra divulgar a poesia fosse a poesia…. me enganei …é mais importante quem vai declama-la e quem vai dirigir o vídeo … e o melhor com incentivo do governo claro .
Ela ia embolsar 600 mil reais. Eu li o projeto, e ele é mal escrito e superfaturado: http://migre.me/43Mj5
Muito interessante sua visão…
De fato você expôs um pouco de uma sociedade que julga o livro pela capa…
Eu mesmo, de inicio, quando ouvi falar da história achei um absurdo…
Mas agora, as coisas ficam mais claras pra mim…
Levarei isso que disse para minha aula de produção… Estavamos debatendo temas como esse…
Sábias palavras.
Posso indicar seu link em meu blog?
http://paulaizabela.blogspot.com/
Grata!
Olá,
Sou servidor de um órgão federal que trabalha com renúncia fiscal. Eu concordo com a maioria dos argumentos expostos em seu texto, mas devo ratifica-lo em um ponto que é crucial: de onde sai o dinheiro.
Você entende e explica a lógica, mas nos parágrafos iniciais afirma que são as empresas que vão pagar. Isso é perigoso. Alguns leitores, acredite, vão dizer que esse dinheiro não é público. E aí está o perigo. Para o leigo, o patrocinador é um mecenas, uma alma boa que defende a cultura nacional.
Eu escuto dos próprios produtores que esse dinheiro não é público, é privado. E com essa lógica, a escolha é do dono do dinheiro, que para os produtores consagrados que a defendem, é a mais vantajosa. A pergunta é se haveria interesse em patrocinar o projeto da Maria Bethânia sem incentivo fiscal.
Recursos são finitos. Nem todos os projetos conseguirão verbas. Mas o Estado tem medo de centralizar (apesar da reforma da Lei Rouanet propr isso), já que ele receberá críticas pelas escolhas de quem recebe ou não a verba. Assim, o modelo agrada produtores consagrados e o governo inerte.
Discordo de uma coisa: nao serao 365 “clipes” dirigidos por andrucha waddington. Tanto que no projeto não tem verba para editor. A Maria Betânia vai sentar em frente à camera e declamar uns 15 poemas por dia durante aproximadamente um mês e por esse mês de trabalho o Andrucha Mala vai receber um salario de 50 mil… por 12 meses.
Ainda assim discordo. É muito egoísmo, pois enquanto gente como Maria Bethania, Marisa Monte e companhia passam na frente do Joãozinho, do Juquinha e da Aninha, estes nunca terão a oportunidade de receber a lei Rouanet. E estes podem estar bem mais necessitados. Se Maria Bethania, Andrucha Waddington e Hermano Vianna querem fazer algo em nome da poesia, façam de graça, são oferecidos recursos para isso também. Todo mundo pode criar um blog, quase todo mundo tem uma webcam. Melhor guardar tal quantia para melhorar o ensino nas escolas (mesmo que seja necessário um infinidade de vezes mais esse valor) e educar nossas crianças a ler poesia, sem atravessadores.
O dinheiro é público, não há por onde discutir. No balanço anual da empresa (e no Orçamento do Governo Federal), tanto faz dinheiro que saiu e dinheiro que não entrou.
Se eu te dou 10 reais ou se eu perdoo uma dívida sua de 10 reais, é a mesma coisa.
E bem, olhando o projeto direitinho, a Bethânia leva 600 mil reais. Não é um videoclip, não é um longa metragem. É uma câmera de alta qualidade gravando a Bethânia declamar poemas. No máximo, é um videolog com produção cara.
Não vejo como a Lei Rouanet possa ser útil pra um país que tem cidadãos pobres.
Adorei o texto, muito bom e esclarece várias dúvidas sobre o assunto. No entanto, acho que uma artista propor um blog que custe tão caros aos cofres públicos, indiretamente, mas é, também é falta de consciência própria Maria Bethânia, não? Se fosse outro projeto, mas um blog? Fala sério…
Otimo Texto! porém pra min é Vergonhoso tanto a Bethania como os projetos da Globo! Tudo farinha do mesmo saco!
Vergonha!
Enquanto ficarmos reféns de leis que dispõem de brechas para que os aproveitadores de plantão suguem os recursos disponíveis, a cultura continuará a ser geridas pelos poucos “abençoados”…
Tanto a cantora quanto o diretor dispõem de condições suficientes para fazer um projeto desses de forma gratuita.
Tem o direito a entrar na lei? Tem. Mas moralmente (pelas condições que dispoõem tanto monetárias quanto de visibilidade), não deveriam. Tal montante daria para tocar um enorme número de trabalhos culturais com muito mais pessoas envolvidas, tanto produzindo quando consumindo cultura.
Há uma diferença entre o que é legal é o que é moral…E a falta de moral de nosso povo é de desanimar.
Fiquei extremamente decepcionado com a Sra. Maria Bethânia… MAs fazer o quê, em um país que os políticos fazem o que querem na maior cara dura e o povo não reclama devidamente?
Shame on you, Bethânia.
Muito bom e lucido seu texto…
Ótimo texto e melhores ainda são os comentários.
Em toda situação que envolve dinheiro público, arte e educação, precisamos usar o bom senso (coisa rara na política nacional). A poesia e a literatura brasileira merecem todo tipo de investimento, mas precisamos de uma sociedade que valorize a leitura e o conhecimento.
Como isso pode acontecer? Investindo em educação. E o melhor: Bethânia, Andrucha, Hermano, a Globo, todos podem contribuir com isso sem esvaziar os cofres públicos.
Reflexões e boas soluções podem surgir desse episódio.
Até …
extremamente lúcido seu artigo. pena que as pessoas ainda fiquem procurando vítimas e vilões….as aninhas e juquinhas não são vítimas e muito menos a bethãnia é vilã..errado está este sistema de “escolhas”, e sem mascaras….benvindos ao capitalismo……nós optamos pelos nossos gestores.
Clarinha, li o projeto de Bethânia e concordo com você. Ela não tem nada a ver. Todavia, continuo a criticar o governo no seguinte aspecto: A falta de fiscalização é evidente na captação e nos tramites legais referentes à renúncia fiscal, que, por sinal, não foram discriminados ( antes fossem mal ), bem como a utilidade pública, em um contexto cultural de hoje em dia, de um Blog que tem um investimento de 1,3mi é, ao meu ver, uma aberração.
Um blog é um artefato virtual, e, por sê-lo, intrinsecamente observa-se o pouco recurso financeiro para fazê-lo, pois, dos mais variados e mais bem sucedidos blogs do mundo, acho eu, no puro achismo, que seu custo, seja com produção de vídeo inserido ou não, não deve ter passado de cem mil dólares.
Acho desproporcional um evento que vai empregar mais de mil funcionários ter um orçamento de 1,5mi e um Blog, que não vai empregar um terço disso, receber aval de 1,3mi para captação.
Enxergo o nome de Maria Bethânia, aqui sim, como uma articulação para aumentar a verba. Imagine se, uma artista como Céu, que na minha opinião precisa muito mais de visibilidade de mercado do que Bethânia, emplacasse um projeto e fosse aprovado, seria ele no valor de 1,3mi? Sinceramente, não acho. O nome Bethânia ajudou, não?
De arremate, ótimo texto. Adorei a forma como você trouxe a informação pra quem só critica por criticar.
Perfeito Clara, parabéns por conseguir esclarecer tão bem uma situação que quase ninguém procura entender antes de começar a criticar.
Ah, e concordo integralmente com sua opinião.
Ela precisa lembrar de como ela surgiu e ter mais responsabilidade com a renovação dos artistias e projetos de cultura popular! http://sociomusical.blogspot.com/
Ela precisa lembrar como ela surgiu! http://sociomusical.blogspot.com/
O grande mérito do texto de Clara é apresentar de forma simples o mecanismo de funcionamento da Lei Rouanet e sua renúncia fiscal. Afinal, pode até parecer algo simples, mas é realmente NOVIDADE para muita gente que projetos de grandes empresas e artistas recebam, de forma indireta, recursos federais para a sua execução. Não esqueçamos que, para quem é da comunicação ou especialmente produção cultural, isso realmente não é novidade, é fruto do nosso trabalho. Porém, quando a informação que um “blog será incentivado pelo governo com 1,3 milhão de reais” (expressão bem próxima à que foi largamente difundida) não é de se espantar o espanto. Claro que isso se deve, em grande parte – e não só -, à desinformação.
Acredito, então, que esse é um caso para ser aproveitado como motivo para discutir em grande escala o funcionamento da Lei Rouanet e seu critérios de aprovação. Quando houve a discussão por conta do incentivo milhonário ao Cirque du Soleil, talvez a discussão fosse mais frutúfera se tivéssemos a ajuda de hashtags ou até mesmo visibilidade para o assunto na grande imprensa. O assunto deve ser discutido, com certeza, e as pessoas mais bem informadas sobre a legislação podem contribuir e não só formar coro contrário ao barulho feito.
Quanto ao projeto, pelo o que li (se é que era a versão apresentada ao MinC), não gostaria, de forma alguma, ter escrito aquilo. Texto vago, orçamento genérico, valores exorbitantes, etc. Vale a pena lembrar, para continuar nessa crítica, que o orçamento apresentado foi de aproximadamente R$1.798.000,00.
Quanto ao desdobramento de todo esse buzz negativo sobre o projeto, aposto que será bastante difícil fazer qualquer captação para o blog e vídeos, já que dificilmente uma empresa irá querer associar sua marca à imagem negativa que foi gerada em torno do assunto. Um pena, talvez; mas seria muito bom se essa manifestação contra eventuais projetos ruins ou de qualidade duvidosa fossem mais comuns em outros casos que tantos conhecemos, até mesmo aqui tão perto de nós ou da FACOM-UFBA (ali mesmo em Ondina, na época de carnaval).
…adoro a DECLAMADORA Bethânia…. mas precisa pagar todos os 360 vídeos de 1 vez???… Soa estranho…
Infelizmente é a lei do mais forte.
clara, o caso bethania é mais um entre muitos. mas foquemos nele. pra mim, a coisa é simples:
se bethania pra fazer um tipo de blog com videos, recitando [diga-se anacarolinizando] poesias, precisa de 600.000 [diretor artistico, no projeto], ela não nos serve. que continue a fazer shows e discos e passar bem. ou arranje o dinheiro através da iniciativa privada com o mesmo prestígio que faz com que ela tenha esse projeto aprovado pelo governo.
agora imagine: é bethania, daniel filho, flora gil e outros…vai somando. é 1 milhao e meio pra cá, 2 milhoes pra lá, 5 milhoes pra cá e assim por diante. se soma tudo isso, olha quanto incentivo [dinheiro público] está sendo destinado para quem já tem fama, grana, história etc. e nosotros…
ainda por cima, qual a grande ideia por tras desse blog? nenhuma. é exatamente o que bethania faz desde os 70s e já fez em um de seus dvds. quer dizer, mais 365 videos de bethania fazendo aquela mesma coisa.
outra: precisamos de 365 videos com ela recitando, que nos custarão mais de 1 milhao? não! passamos muito bem sem isso. façamos filmes, peças de teatro, discos, livros…a sociedade tem o direito de dizer: bethania, isto não nos interessa. nao a esse preço. volta pra sua carreira convencional. dispensamos seu “altruístico apoio” à poesia mundial.
e outra: dá 5% desse dinheiro + um laptop e uma webcam pro ferreira gullar. custaria muito menos e faria muito mais pela poesia mundial.
é um disparate que artístas em início de carreira, poetas em dificuldade para editar suas obras, excluídos digitais [só exemplos] ajudem a pagar a conta de projetos como este. beira o cinismo. nada disso aqui precisaria ser dito se o projeto fosse mais justo, mais realista, menos anacrônico e estapafúrdio.
precisamos discutir não apenas as leis de incentivo, mas a cultura como um todo. chega de saudade.
Sou fã de Bethânia, mas isso não muda a realidade. Lí todos os textos e o suposto projeto, digo suposto porque não fui pesquisar no site do MINC. Já enviei alguns projetos para a antiga Rouanet e atual SALIC (Sistema de Apoio às Leis de Incentivo à Cultura) e, se esse projeto for realmente o aprovado, é uma cara de pau imensa, não pelo produto artístico somente, mas por possuir uma planilha orçamentária tão pouco detalhada para um valor tão alto. Trata-se 1,3 milhões como se tratariam da distribuição de R$ 1.000,00. O Projeto em si consiste em em menos de 19 horas de gravação de poesias que em nenhum momento é explicado como será gravado (pode ser simplesmente fundo preto e a pessoa na cadeira falando), ou pior, imagens captadas e só a voz de Bethânia. Não se tem a clareza do produto final. Questiono a aprovação do projeto por já ter tido projetos colocados no Salic tive que ser bem específico na minha planilha orçamentária, tive que deixar claro qual o meu produto final e, sinceramente, acho R$ 50.000,00 reiais mensais para a direção artística tão vergonhoso quanto um salário de um deputado Federal (R$ 16.512,09). Claro que temos que questionar o formato da Lei, o que já vem sendo questionado a muito tempo, mas não podemos deixar passar em branco um absurdo tão grande.
Gostei da análise. Acho que parte dos recursos da Lei Rouanet deveriam ser para financiar exclusivamente projetos de pessoas não consagradas – o que garantiria a diversidade cultural e o apoio efetivo aos que dele necessitam de fato. As unanimidades criadas artificialmente via blogs, e-mails e twiters são espantosas: criam-se consensos automáticos e irrefletidos.
eu acho que a questao nao é Maria Betania, mas acho valido nao concorda em se gastar 1,3 milhoes para fazer um blog/site, quando a grande maioria dos artistas nacionais vivem, ou sobrevivem tentando viver de arte, é o que? tem que chegar no Olimpo para ser artista? a me economizem, agora vem uma galera de privilegiados e querem gasta uma grana para fazer uma coisa que se pode fazer com metade desse orçamento e querem que a gente fique calado? não quero saber quem vai pagar, mas me revolta gastar uma grana da porra enquanto essas Empresas e o propio Minc lançam editais para se montar uma peça teatral com 30.000 reais. ah pelo amor de Deus!!!!!!!!!!
Carcarás
Como se sabe, a cultura brasileira sobrevive de incentivo fiscal. Com autorização do governo federal, as empresas podem direcionar parte do dinheiro destinado a tributos para os projetos de sua preferência. Todo mundo usa esse instrumento há anos. Todo mundo mesmo: de filmes com atores globais a livros de fotografia, de circos famosos a shows de estrelas sertanejas.
Mas então por que de repente surgiram reclamações contra o projeto de Maria Bethania e Andrucha Waddington?
Primeiro porque boa parte da blogosfera dita “progressista” continua se deixando pautar pela imprensa corporativa. Em vez de questionar certas incongruências do noticiário cultural, tão afeito a lobbies e mistificações, esses comentaristas não apenas engolem suas besteiras mas, pior, ecoam-nas como se tivessem nascido de espírito investigativo desapegado e imparcial.
Em segundo lugar porque existe uma campanha midiática para derrubar a ministra Ana de Hollanda. E não é razoável supor que certa intelectualidade de esquerda, tão sagaz em identificar e denunciar seus inimigos, desconheça os interesses aos quais se alinha nesse tipo chinfrim de polêmica.
Não se trata, portanto, de uma discussão sobre a Lei Rouanet (que, aliás, precisa ser redimensionada urgentemente), mas de uma disputa política do pior tipo: aquele que usa bodes expiatórios para dissimular suas verdadeiras motivações.
http://guilhermescalzilli.blogspot.com/
Clara
Acredito piamente na sua boa vontade, mas pontua a boa-fé e a inocência em vários momentos. Com relação a Maria Bethânia não há o que falar desta pessoa, poucos trabalhos na América Latina guardam a qualidade e autenticidade dessa artista. Agora a Lei Rouanet e os métodos de seleção não tem nada de salutar para nossa cultura (Uma das poucas coisas boas geradas por essas regras e conceitos é exatamente esse trabalho da Maria Bethânia);
Quanto a Rock in Rio e outras excrescência nem vou falar.
Lembro ainda que politica publica de cultura não é nada disso.
Parabéns Clara! Seu texto resume desapaixonadamente,com clareza,e inteligencia,todo esse alarido em torno do (polemico)projeto de Bethania.
Helena Mª Monteiro Lopes
E o pior disso tudo é que mesmo com Bethania, Ivete, Rock in Rio etc., fazendo eventos com verbas de projetos, ainda sobra dinheiro (sim! sobra!) nessas instituições para que eu ou você produza enventos culturais, mas quantos desses que criticaram alguma vez já sequer tentou??
Abrass
Ora, tudo dentro da lei?
Então agora sabemos que a lei é falha.
E daí, a lei pode ser falha mas não é por isso que o Ministério da Cultura deveria aprovar tal projeto. Faltou responsabilidade e bom senso do MinC.
Não precisamos de tais projetos (caros e cheios de preciosidades).
Se os autores se acham tão bons assim, porque não se lançam no mercado, assumindo riscos, como a maioria faz.
Quem é realmente bom se vira sózinho. Não monta turma para tentar se apropriar de dinheiro público.
E que grande projeto é este?. Tenho conversado com muitas pessoas e a opinião geral é: Quem vai aguentar ver por 365 dias seguidos vídeos sobre poemas e com a mesma pessoa? Onde estão os novos valores? Poemas inéditos regionais? É muita pretensão!
Não somos idiotas !!!